terça-feira, 28 de outubro de 2014

Dos esquecidos e dos ocultos

Tempos atrás fui relatar um caso e me deparei com a seguinte lógica: meu interlocutor declarava não entender o conceito de transtorno de personalidade. Tentei uma, duas, três vezes, e me veio claramente um conceito que ele compreenderia.
_ Pessoa, você sabe aquelas coisas que faziam com que os familiares trancassem você no sótão e jogassem a chave fora contando pra todo mundo como você vivia feliz em uma viagem que nunca acabava?
_ Poxa, isso aconteceu com um tio da minha mãe!
Pois então! Não imagine que patologias deste tipo sejam coisas do nosso século! Elas estiveram lá por toda a história da humanidade! A questão é: a vergonha da “anormalidade” produziu incontáveis casos que se enquadram neste princípio de que o que não é visto não precisa ser discutido e, se não precisa ser discutido, menos ainda compreendido e vivenciado. As pessoas simplesmente entravam em um nível de inexistência e, nesta inexistência permaneciam até o fim de suas vidas. Acha difícil crer? Sem problemas! Nós podemos lhe guiar em uma história cheia de bons exemplos disso...
Em outros tempos eu chamaria você para dar uma passada na biblioteca mas, como hoje não precisamos sair do lugar, abra uma segunda aba em seu navegador. Abriu? Ótimo! Recorra ao seu bom amigo GOOGLE e digite: “O morro os ventos uivantes – sinopse”.  Observe a data em que foi escrito, perceba que neste clássico da literatura vários personagens são retirados de cena e que isso não se dá apenas subjetivamente. Eles são exilados do convívio de suas famílias por seu comportamento.
Não se convenceu?
Digite: Austregésilo Carrano Bueno, este bem mais familiar, cuja história inspirou o filme Bicho de Sete Cabeças e é feita de indas e vindas a manicômios pelo simples fato de ter seu pai encontrado maconha em seu bolso.
Ou você ainda pode tentar o nome  Heleno de Freitas.
O resultado virá cheio de grandes feitos, afinal, Heleno de Freitas era um jogador notável. Mas... continue lendo... encontrou? Sim! O grande Heleno de Freitas teve o fim dos seus dias em um “lar de repouso”... Não entendeu? Fácil... Digite agora: Manicômio de Barbacena e conheça a linda casa de repouso em que Heleno terminou seus dias graças às suas constantes alterações de humor e acessos violentos.
Aliás, o manicômio de Barbacena é um bom exemplo para ilustrar esse exílio do que não se enquadra na “normalidade”. Projetado para ser uma casa de repouso para os mais abastados, acabou tornando-se palco das mais diversas demonstrações da aversão humana ao diverso. Era para lá que se enviavam os alcoólicos, os drogaditos, os homossexuais, os compulsivos e toda a gama de diversidade patológica ou não de toda uma era. Amontoados como lixo humano, eram submetidos a todo tipo de sevícia e maus tratos que iam das correntes ao eletrochoque, passando pela fome e o descaso, principalmente com as mulheres, que eram violadas e vinham a gerar crianças que já nasciam condenadas à mesma sorte. Mais tarde descobriu-se que a maior insanidade não advinha dos internos, mas sim, de todo um sistema instituído no local, que passou a fornecer cadáveres para universidades do país inteiro e, quando as universidades não davam conta de recolher estes cadáveres em tempo de evitar a decomposição, fervia os ossos dos internos mortos ali mesmo, no pátio comum, sob o olhar de quem ainda sobrevivia à sevícia e ao infortúnio coletivo e das crianças nascidas e criadas no lugar.

Hoje, o lugar do antigo manicômio abriga o Museu da Loucura e nos brinda com uma viagem alucinante pelas histórias expressas nos olhos dos internos e registradas em fotografias inacreditáveis tiradas nos últimos anos de funcionamento, bem como em verdadeiras relíquias de toda uma era de crueldade e desumano tratamento com aqueles que ousavam ser diferentes seja lá o que isso signifique.
Heleno de Freitas por Rodrigo Santoro

 Austregésilo Carrano Bueno

Nenhum comentário:

Postar um comentário