Tempos atrás fui relatar um caso
e me deparei com a seguinte lógica: meu interlocutor declarava não entender o
conceito de transtorno de personalidade. Tentei uma, duas, três vezes, e me
veio claramente um conceito que ele compreenderia.
_ Pessoa, você sabe aquelas coisas que faziam com que os familiares
trancassem você no sótão e jogassem a chave fora contando pra todo mundo como
você vivia feliz em uma viagem que nunca acabava?
_ Poxa, isso aconteceu com um tio da minha mãe!
Pois então! Não imagine que
patologias deste tipo sejam coisas do nosso século! Elas estiveram lá por toda
a história da humanidade! A questão é: a vergonha da “anormalidade” produziu
incontáveis casos que se enquadram neste princípio de que o que não é visto não
precisa ser discutido e, se não precisa ser discutido, menos ainda compreendido
e vivenciado. As pessoas simplesmente entravam em um nível de inexistência e,
nesta inexistência permaneciam até o fim de suas vidas. Acha difícil crer? Sem
problemas! Nós podemos lhe guiar em uma história cheia de bons exemplos
disso...
Em outros tempos eu chamaria você
para dar uma passada na biblioteca mas, como hoje não precisamos sair do lugar,
abra uma segunda aba em seu navegador. Abriu? Ótimo! Recorra ao seu bom amigo
GOOGLE e digite: “O morro os ventos uivantes – sinopse”. Observe a data em que foi escrito, perceba
que neste clássico da literatura vários personagens são retirados de cena e que
isso não se dá apenas subjetivamente. Eles são exilados do convívio de suas
famílias por seu comportamento.
Não se convenceu?
Digite: Austregésilo Carrano Bueno, este bem mais familiar, cuja história inspirou o filme Bicho de Sete
Cabeças e é feita de indas e vindas a manicômios pelo simples fato de ter seu
pai encontrado maconha em seu bolso.
Ou você ainda pode tentar o nome Heleno de Freitas.
O resultado virá cheio de grandes
feitos, afinal, Heleno de Freitas era um jogador notável. Mas... continue
lendo... encontrou? Sim! O grande Heleno de Freitas teve o fim dos seus dias em
um “lar de repouso”... Não entendeu? Fácil... Digite agora: Manicômio de
Barbacena e conheça a linda casa de repouso em que Heleno terminou seus dias
graças às suas constantes alterações de humor e acessos violentos.
Aliás, o manicômio de Barbacena é
um bom exemplo para ilustrar esse exílio do que não se enquadra na
“normalidade”. Projetado para ser uma casa de repouso para os mais abastados,
acabou tornando-se palco das mais diversas demonstrações da aversão humana ao
diverso. Era para lá que se enviavam os alcoólicos, os drogaditos, os
homossexuais, os compulsivos e toda a gama de diversidade patológica ou não de
toda uma era. Amontoados como lixo humano, eram submetidos a todo tipo de
sevícia e maus tratos que iam das correntes ao eletrochoque, passando pela fome
e o descaso, principalmente com as mulheres, que eram violadas e vinham a gerar
crianças que já nasciam condenadas à mesma sorte. Mais tarde descobriu-se que a
maior insanidade não advinha dos internos, mas sim, de todo um sistema
instituído no local, que passou a fornecer cadáveres para universidades do país
inteiro e, quando as universidades não davam conta de recolher estes cadáveres
em tempo de evitar a decomposição, fervia os ossos dos internos mortos ali
mesmo, no pátio comum, sob o olhar de quem ainda sobrevivia à sevícia e ao
infortúnio coletivo e das crianças nascidas e criadas no lugar.
Hoje, o lugar do antigo manicômio
abriga o Museu da Loucura e nos brinda com uma viagem alucinante pelas
histórias expressas nos olhos dos internos e registradas em fotografias
inacreditáveis tiradas nos últimos anos de funcionamento, bem como em
verdadeiras relíquias de toda uma era de crueldade e desumano tratamento com
aqueles que ousavam ser diferentes seja lá o que isso signifique.


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