quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Do medo e da normose

Renato Russo dizia: ”Quando nascemos somos programados pra receber o que vocês nos empurraram como os enlatados de USA de nove às seis.” No nosso caso o tema não engloba os enlatados de USA. Neste momento, o que nos empurraram deixa raízes bem mais profundas que os enlatados. O medo. O medo que nos é empurrado desde a mais tenra infância, de fato, tem o poder e a incumbência de programar nossas mentes e nossas atitudes pelo resto da vida.
Mas qual a relação entre o medo e a normose?
Desde o começo de nossa existência, somos expostos a estereótipos criadores do medo e do caos. O homem do saco, que é louco e rouba as crianças que andam sozinhas pelas ruas, ou que falam com estranhos... As ciganas que usam saias amplas para esconder as crianças que não se comportam... O rato malvado, perverso e comedor de criancinhas... E tantos outros elementos culturais reguladores do comportamento infantil que vão do Papai Noel despótico e julgador de caráter que premeia ou pune as crianças a seu bel prazer aos palhaços perversos que ilustram o imaginário infantil em uma vã tentativa dos adultos de dominar pelo medo. O que essas figuras têm em comum? Fácil! Todas elas são representações do que se esconde longe da segurança dos braços maternos e, cada uma delas a seu modo, aciona o botão do medo nas frágeis mentes em formação. O resultado? Mais fácil ainda... Se não construo meu EU na afirmação, o construo na negação, assim, se a cigana é louca e do mal, tudo que vou querer formar em mim estará afastado da insanidade e da maldade. Me pergunto: o que as ciganas dizem aos seus filhos para moldar suas atitudes?   O caso é: se buscar o normal pela negação do que é ANORMAL é um padrão instituído em quase todas as apresentações e formatações culturais existentes e, se essas formatações culturais são tão diferentes entre si, o que é de fato a normalidade?
Em uma conversa com amigos, ouvi a seguinte afirmação:
“Não entendo este universo a que te referes. Nunca convivi com qualquer tipo de anormalidade ou patologia.”
O curioso é: esta afirmação me veio de alguém que tem um histórico de relações complexas e que escolheu o isolamento como forma de defesa do mundo inteiro, bem como optou por negar-se ao direito de uma vida afetiva ou de sua própria sexualidade, por conta de dois eventos específicos, envolvendo pessoas específicas. Olhando mais a fundo surgem outros questionamentos. Negar a possibilidade da existência e desenvolvimento de patologias mentais em seu universo cotidiano livrou esta pessoa de uma relação sadomasoquista? Não. E do advento de uma relação com um ser narcísico, dominador e de caráter duvidoso? Não. Negar o universo que inclui a possibilidade da entrada de um patologicamente diferenciado, de envolver-se emocionalmente com alguém de índole perniciosa impediu que viesse a casar com alguém que viesse a minar criteriosamente sua vida em todos os seus aspectos (emocional, familiar, financeiro e profissional)? Também não! Pelo contrário! Esta necessidade de negar o possivelmente patológico só fez diminuir suas defesas diante do perigo iminente! E, sim... A necessidade de buscar a normalidade a qualquer preço, de negar o patologicamente contrário e insano é uma patologia!
A NORMOSE é uma patologia que vem ganhando cada dia mais visibilidade e que se inclui com facilidade em uma das maiores gamas de patologias reconhecidas no mundo de hoje. A que abrange as DISTORÇÕES DE AUTOIMAGEM e, assim como para um anoréxico a forma obesa se torna uma obsessão a ponto de jamais ser possível a ele enxergar-se em forma, para o normótico, a busca da normalidade é motivo de obsessão tão arraigada que o afasta sempre mais do objetivo. É comum, ou ironicamente poderia dizer que é normal ao normótico, a negação do afetivo quando este não se sente capaz de controlar sua passionalidade. É comum ao normótico a negação da sexualidade se esta apresenta algum padrão de divergência com o socialmente aceitável. É comum ao normótico a busca por situações profissionais de baixo risco e, consequente, baixa possibilidade de realização. Como a quase totalidade das patologias, a normose apresenta-se aliada a comorbidades que vão da necessidade obsessiva de controle do ambiente e das relações, bem como a divergência entre o que considera valor quando da mudança e ambiente. Por exemplo: o mesmo normótico que valoriza o requinte de linguagem e a erudição se estiver em um grande centro, irá rejeitá-la se seu núcleo de vivência for transferido a uma região menos favorecida culturalmente e quase se poderá crer que viveu toda sua existência naquele meio. Partindo-se deste princípio cria-se um paradoxo: ao mesmo tempo em que um normótico apresenta inacreditável dificuldade de adequação a situações atípicas ele também se mostra um camaleão, adequando-se ao contexto à sua volta de forma quase simbiótica, não necessariamente por uma mudança interna real, mas pela simples necessidade de parecer NORMAL! Igualmente paradoxal é o fato de que quanto maior a obsessão pela ideia da normalidade, menos normal se torna o ser.
A pergunta é: Se tenho tamanha necessidade de negar a existência de algo, gasto mais tempo e energia focando no que nego ou no que lhe é diverso?
No caso do normótico, a consolidação do que se é dá-se por negação e, como tudo que se constrói pela negação, gasta-se mais energia e tempo focando em não ser anormal e negar tudo aquilo que assim lhe parece que sobra muito pouco tempo e vida para construir de fato o que se é em essência e, que por ser essência, não se abala pelo ambiente. Resta a última pergunta: iniciei minha construção ensimesmado no medo e na negação do que não é comum, construí algo volátil, ditado pelo que me cerca... Se eu for inserido em um contexto de ignorância, desconstruo o que em mim é cultura. Se eu for, por uma vicissitude da vida, inserido em um microcosmo onde a grande maioria for de assassinos, quanto tempo levarei para sentir o gosto do sangue em meus lábios?

Abri com Renato e fecho com ele...

Vamos festejar a estupidez humana a estupidez de todas as nações!
Esse país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões!




terça-feira, 28 de outubro de 2014

Dos esquecidos e dos ocultos

Tempos atrás fui relatar um caso e me deparei com a seguinte lógica: meu interlocutor declarava não entender o conceito de transtorno de personalidade. Tentei uma, duas, três vezes, e me veio claramente um conceito que ele compreenderia.
_ Pessoa, você sabe aquelas coisas que faziam com que os familiares trancassem você no sótão e jogassem a chave fora contando pra todo mundo como você vivia feliz em uma viagem que nunca acabava?
_ Poxa, isso aconteceu com um tio da minha mãe!
Pois então! Não imagine que patologias deste tipo sejam coisas do nosso século! Elas estiveram lá por toda a história da humanidade! A questão é: a vergonha da “anormalidade” produziu incontáveis casos que se enquadram neste princípio de que o que não é visto não precisa ser discutido e, se não precisa ser discutido, menos ainda compreendido e vivenciado. As pessoas simplesmente entravam em um nível de inexistência e, nesta inexistência permaneciam até o fim de suas vidas. Acha difícil crer? Sem problemas! Nós podemos lhe guiar em uma história cheia de bons exemplos disso...
Em outros tempos eu chamaria você para dar uma passada na biblioteca mas, como hoje não precisamos sair do lugar, abra uma segunda aba em seu navegador. Abriu? Ótimo! Recorra ao seu bom amigo GOOGLE e digite: “O morro os ventos uivantes – sinopse”.  Observe a data em que foi escrito, perceba que neste clássico da literatura vários personagens são retirados de cena e que isso não se dá apenas subjetivamente. Eles são exilados do convívio de suas famílias por seu comportamento.
Não se convenceu?
Digite: Austregésilo Carrano Bueno, este bem mais familiar, cuja história inspirou o filme Bicho de Sete Cabeças e é feita de indas e vindas a manicômios pelo simples fato de ter seu pai encontrado maconha em seu bolso.
Ou você ainda pode tentar o nome  Heleno de Freitas.
O resultado virá cheio de grandes feitos, afinal, Heleno de Freitas era um jogador notável. Mas... continue lendo... encontrou? Sim! O grande Heleno de Freitas teve o fim dos seus dias em um “lar de repouso”... Não entendeu? Fácil... Digite agora: Manicômio de Barbacena e conheça a linda casa de repouso em que Heleno terminou seus dias graças às suas constantes alterações de humor e acessos violentos.
Aliás, o manicômio de Barbacena é um bom exemplo para ilustrar esse exílio do que não se enquadra na “normalidade”. Projetado para ser uma casa de repouso para os mais abastados, acabou tornando-se palco das mais diversas demonstrações da aversão humana ao diverso. Era para lá que se enviavam os alcoólicos, os drogaditos, os homossexuais, os compulsivos e toda a gama de diversidade patológica ou não de toda uma era. Amontoados como lixo humano, eram submetidos a todo tipo de sevícia e maus tratos que iam das correntes ao eletrochoque, passando pela fome e o descaso, principalmente com as mulheres, que eram violadas e vinham a gerar crianças que já nasciam condenadas à mesma sorte. Mais tarde descobriu-se que a maior insanidade não advinha dos internos, mas sim, de todo um sistema instituído no local, que passou a fornecer cadáveres para universidades do país inteiro e, quando as universidades não davam conta de recolher estes cadáveres em tempo de evitar a decomposição, fervia os ossos dos internos mortos ali mesmo, no pátio comum, sob o olhar de quem ainda sobrevivia à sevícia e ao infortúnio coletivo e das crianças nascidas e criadas no lugar.

Hoje, o lugar do antigo manicômio abriga o Museu da Loucura e nos brinda com uma viagem alucinante pelas histórias expressas nos olhos dos internos e registradas em fotografias inacreditáveis tiradas nos últimos anos de funcionamento, bem como em verdadeiras relíquias de toda uma era de crueldade e desumano tratamento com aqueles que ousavam ser diferentes seja lá o que isso signifique.
Heleno de Freitas por Rodrigo Santoro

 Austregésilo Carrano Bueno

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Das razões de me assumir a-normal

A língua, expressão inteligível de todo e qualquer pensamento, é plena de conceitos indefinidos e de significados flutuantes... Perto, por exemplo: o que é perto?
A resposta depende... Perto a dois passos, perto na casa ao lado, perto na cidade próxima, perto... Pq perto é perto, independente da magnitude das escalas, é apenas um conceito subjetivo cuja finalidade é dar-nos uma noção vaga de que algo esteja próximo.
Normal. O que é normal?
Normal, no dicionário, define-se como algo corriqueiro, costumaz, algo que diverge do notável, do extraordinário. Mas, em se tratando de normalidade... O que de fato é ANORMAL em um mundo em que a grande, imensa, vasta maioria é portador de algum tipo de problema relacionado à saúde mental? Em 2014, quantas são as pessoas de seu círculo de relações que você pode afirmar que não sofrem de NENHUM tipo de distúrbio associado à saúde mental? Em tempos de depressão, ansiedade, melancolia e de uma vasta gama de outras nuances de maior ou menor potencial de devastação da personalidade e do comportamento, quem dentre os seus amigos e familiares pode ser declarado um ser NORMAL?
Ok! Os mais céticos devem ter encontrado uns dois, talvez três amigos e familiares que nunca deram demonstração de qualquer tipo de perturbação mental. Sim, compreendo... Mas se em todo o seu universo de conhecidos, amigos, colegas e familiares apenas duas ou três pessoas são dignas de serem declaradas imunes a esse tipo de “problemas” quem serão os normais? Esta minoria de uns dois ou três, ou a grande maioria, que lota as ruas de uma gama incontável de perturbações e combinações das mais diversas patologias neuropsíquicas?
Está difícil responder? Então repense... Tabagismo, alcoolismo, melancolia, drogadição, depressão, ansiedade, narcisismo, anorexia, bulimia, compulsão, fobia, autopunição, auto sabotagem, automutilação, bipolaridade... Todas estas coisas estão relacionadas a problemas inerentes à saúde mental... Então... Você de fato conhece alguém NORMAL?

A intenção do nosso trabalho é resgatar através do entendimento das diversas variáveis (desta infinda gama de possíveis “anormalidades”) uma melhoria na qualidade de vida tanto do portador da patologia, quanto do núcleo familiar em que este se insere. Pq em se compreendendo a patologia e suas manifestações, há de se encontrar um melhor meio de lidar com ela e, quem sabe, um dia podermos nos admitir parte de uma imensa maioria que vive todo dia o inimaginável mundo da real normalidade, afinal, de perto NINGUÉM é normal!


O material que aqui começa a ser organizado é o resultado de alguns anos de trabalho focado em três microcosmos (fibromialgia e dor crônica - Fundação Vida sem Dor; Transtorno de Personalidade Borderline – BorderlineGirl e Fundação TRAS Equilíbrio; e, por último e não menos importante, De pendência Emocional – Amor sem Dor e AMA) pertencentes a esta dimensão e que acabam convergindo aqui na intenção de ampliar ainda mais a abrangência e o conteúdo alcançado.
Seja bem vindo nesta jornada em busca da compreensão da NORMALIDADE deste nosso mundo A-NORMAL.

Paula Sophia Ávila

Fundação Vida sem Dor